Desornamentação

A crítica do esquecimento do "belo" é uma espécie de redux da crítica da estetização, só que com o sinal trocado.

Desornamentação

Hoje vi mais um desses posts comparando antes e depois, em que o “antes” são imagens de casas, objetos, mobiliário público etc. com ornamentação, e o “depois” são fotos de prédios, objetos, mobiliário público, etc. modernistas, ou simplesmente sem muita ornamentação.

Além do argumento sobre o modo de produção (artesanal vs. industrial) e sobre estilo, fiquei pensando sobre como isso é uma espécie de instância da discussão proto-romântica sobre quais aspectos da vida quotidiana merecem ou não merecem uma mirada estética, ou sobre quais campos podem e quais não podem ser “estetizados”.

Esse vocabulário é dos anos 1970, quando emergiram as teses da estetização do mundo-da-vida, segundo as quais estaríamos passando, enquanto sociedade, por um processo progressivo de adoção de categorias estéticas como mediadoras da nossa relação com a vida quotidiana (sobretudo a de “experiência”), em detrimento, por exemplo, de categorias religiosas, morais, ou mesmo políticas. Dado que o campo de fruição estética se tornava cada vez mais restrito (segundo a tese), o estético, que desde a modernidade contava com espaço próprio (o museu, o festival), se expandia agora para todos os campos da vida.

Se antes a gente tinha a festa (estético) e depois ia pro trabalho (não estético), agora a gente não tem mais a festa, o que faz com que a nossa necessidade de fruição e expressão estéticas, que ainda existem, se diluam para outros campos da vida, inclusive o trabalho (por exemplo, na ausência de carnaval, você passa a desejar pelo menos uma mesa de ping-pong no escritório).

Particularmente, não concordo muito com essa tese (na forma como descrevi aqui, articulada pelo Bubner), e acho que, se “estetização” descreve algo, é apenas uma reflexão maior sobre a natureza estética da nossa constituição do mundo, não uma mudança “material”, digamos.

Acho que a crítica da falta de ornamento na vida quotidiana hoje tem um quê de crítica da estetização, só que, digamos, com o sinal invertido. Acho que ela tem um fundo legítimo, na medida em que nomeia uma sensação meio difusa de diluição do “estilo” em “função”, que não é propriamente nova mas que, quando hiper-massificada, incomoda até as camadas que a massificação, em termos econômicos, beneficia. Mas acho também que, assim como a crítica da estetização, a crítica da desornamentação descreve menos um processo material (uma mudança em como as coisas são feitas) do que uma reflexão sobre o mundo (uma mudança em como um senso comum estético lida com o legado do modernismo).

Não é como se o ornamento em si não pudesse ser produzido em massa. É só que ele, já há mais ou menos um século, saiu de moda entre as elites, depois entre as classes médias e finalmente entre as classes trabalhadoras (exemplo canônico são as casas populares que agora vêm com telhado escondido). Talvez simplesmente o ornamento esteja, agora (talvez justamente porque o modernismo “trickled down” de vez) de volta na moda, e a crítica da desornamentação (que normalmente toma a forma de algo como “estamos esquecendo do BELO” etc.) seja uma roupagem legislativa sobre uma questão, por fim, de moda. Uma preferência pelo ornamento que em vez de, sei lá, reivindicar um retorno ao rococó, usa um vocabulário moral de degradação da civilização ocidental. Legisla moralmente, digamos, sobre o que merece e o que não merece uma mirada estética.

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